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segunda-feira, 12 de setembro de 2022

MINHA FÉ DUVIDOU. COLUNA VISÃO, COM RONALDO NAVES.

 MINHA FÉ DUVIDOU





Lutar exige armas e preparação. Toda mudança acontece em meio a conflitos e desconfortos. A comodidade é inimiga do desenvolvimento. Observe que o crescimento profissional requer estudo, dedicação e disciplina. Da mesma forma, o aditamento espiritual implica em conhecer o universo etéreo que nos envolve e praticar os princípios que o regem.


Nós, policiais usamos no ofício, armas de fogo, algemas, tontas, gases e, além disso, estudamos técnicas de abordagens, investigações e defesa pessoal. O conjunto de todo o treinamento se chama capacitação. Quando a necessidade real demanda ação, somos testados e o fracasso ou o sucesso, não importa, deveria sempre nos impulsionar na direção do aperfeiçoamento contínuo, pois disso, depende, muitas vezes, a nossa vida.


Será que nos empenhamos em usar também as armas espirituais das quais sacamos o domínio próprio, a temperança, a mansidão,  a fé, a bondade, a compaixão e o amor? Este rol é apenas uma amostra significativa que melhora nossa força interior, altera nossa percepção de mundo e atinge positivamente o ambiente que nos cerca.


Quando entendemos o mundo espiritual adquirimos o ouro da sabedoria e o colirio da sensibilidade e do discernimento. Claro que quanto mais eu busco, mais eu encontro. Deveria ser prioridade de todos a ascensão neste campo tão importante e transformador.


A qualidade de vida pode ser medida muito mais pela paz e pela comunhão com Deus, do que pelos bens que possuímos. A serenidade e o estado de espirito equilibrado não tem preço e não se compara a títulos e cargos sociais. Somos, todos, pobres coitados com diferentes pecados, porém, necessitados do mesmo remédio.


Um dia, em um plantão distante, chegou uma moça negra, bem alta e forte, conduzida por vários policiais militares pela violência física brutal contra sua mãe e sua irmã. A moça aparentava vinte e poucos anos seu semblante estava transtornado. Foi colocada no banco de concreto e algemada ao cano de ferro. Ela se debatia ao mesmo tempo em que tirava a roupa e urinava enquanto gritava e xingava incessantemente. 


Vi na moça um amontoado de problemas que se acumularam ao longo dos anos e um descaso com as coisas de Deus. Sua prioridade nunca foi equilíbrio e comunhão, mas drogas, bebidas e prostituição.

Existem outras prioridades que nos afastam de nossa essência. A preocupação exagerada com o ter; os interesses materiais e pessoais preenchendo toda a agenda que ficou sem espaço para a oração e a comunhao; o trabalho à frente da familia; a família antes de Deus.


Cada vez que alguém se aproximava daquela jovem, era rechaçado com chutes e cusparadas, além da expressão demoníaca que estava nela. Nesse dia, a oração foi a arma utilizada, pois a batalha se travava em outra dimensão.  Orei a Deus pela misericórdia daquela pessoa e para que retirasse dela a possessão que atentava contra sua vida e a de sua familia.


Cinco minutos foi o tempo que levou para que a jovem se acalmasse, deitasse no banco e adormecesse. Confesso que minha fé duvidou do que aconteceu diante dos meus olhos e dos olhos de todos que acompanharam a cena. Alguns diziam: -cansou! Outros se perguntavam: -morreu? Mas eu sabia exatamente o que acontecera ali.


Encerro aqui, pois já alonguei bastante o texto, mas tivemos que levá-la ao IML e depois para a carceragem e a impressão era de que ela havia tomado um sossega-leão. Levantou-se sonolenta e passou por todas as etapas do processo sem nenhuma alteração. Parecia outra pessoa! Esta história serve como ilustração da imprescindibilidade de se armar com os recursos divinos à nossa disposição e de usá-los em favor de nós mesmos e dos outros. Este é o propósito!




Ronaldo Naves

segunda-feira, 5 de setembro de 2022

ALÉM DA VISÃO ESTÁ O AMOR - COLUNA VISÃO, COM RONALDO NAVES.

 ALEM DA VISÃO ESTÁ O AMOR




Ganhei um abraço significativo, forte e suplicante ao abrir a porta do cubículo da viatura da polícia militar. Vou discorrer sobre o que aconteceu no plantão de sábado à noite. O dia por si só já diz muita coisa, pois as baladas estão a todo vapor e os excessos logo se apresentam. Bebidas, drogas, sexo e muita, mas muita confusão. 


Foram 4 autos de prisão em flagrante e 3 termos circunstanciados que movimentarem escandalosamente a noite na 1° DP. Parecia que o 4°BPM  estava em peso no estacionamento da delegacia. Porém, a história que culminou no abraço não faz parte de nenhuma das ocorrências registradas. 


Na verdade, estávamos todos em atendimento quando ouvimos gritos e batidas do lado de fora da delegacia. Inicialmente, ficamos parados e atentos para entender o que se passava, mas os berros aumentaram e, então, corremos para verificar o motivo da histeria. Encontramos, no meio do caminho, um senhorinha de 80 anos, uma de suas filhas e seu marido. Paramos ali para conversarmos e tentar entender a história. Nisso, a bagunça continuava dentro da viatura parada um pouco mais à frente.


 A senhora disse que sua outra filha, a que estava dentro do cubículo, é alcoólatra e usuária de crack. A outra filha, que estava com o marido, disse que sua irmã havia quebrado a estante de sua mãe e mais um monte de coisas lá na casa dela. O genro completou a relato dizendo que ela estava a 2 semanas na casa de sua sogra e que antes ela estava morando na rua. 


O colega foi até a viatura tentar dialogar com a mulher enquanto permaneci ali com a família e alguns policiais. Daí um tempo ele volta e diz ser impossível conversar com moça, tamanho o descontrole dela e o nivel de embriaguez que ela estava. Senti vontade de falar com a moça como se algo me empurrasse na direção dela.


Quando parei na frente dela, imediatamente ela parou de gritar e pediu que eu a tocasse, colocando seus dedos na grade que a prendia. Coloquei minhas mãos ali e perguntei seu nome. Ela conversou como se estivesse enxergando algo extraordinário além de mim. Disse que a soltaria com a condição de permanecer naquele estado pacífico e sob a promessa de que não voltaria para a casa de sua mãe. Ela concordou, mas disse que queria me dar um abraço antes de tudo. Abri a porta da gaiola e foi aí que recebi o abraço significativo, forte e suplicante do início do texto. 


Chorava enquanto abraçava e disse ao meu ouvido que o que estava em mim era bom. Pedi várias vezes que me soltasse, mas parece que ela abraçava algo mais que só ela via. Alguns podem fundamentar sua atitude pelos efeitos das drogas, mas não creio nisso, haja vista que estas mesmas drogas a levaram ao estado anterior, selvagem e descontrolado. O que ela viu, seja o que for, a acalmou! Depois de um tempo, soltou e disse que eu havia salvado a sua vida. Disse a ela que pedisse perdão à sua mãe e à sua irmã antes de ir embora. Ela ainda chorava enquanto se despedia. Foi tentar uma vaga no albergue juntamente com um rapaz que dizia ser seu namorado.


Antes de qualquer inferência precipitada sobre tudo isso, gostaria de esclarecer que não atribuo nada do que aconteceu à minha pessoa. Tenho consciência da minha pequena estatura espiritual e me considero entre os pecadores, o pior de todos. Talvez, por isso, oro continuamente suplicando pela misericórdia de Deus e, ao mesmo tempo, me coloco à disposição dele, como vaso de honra, para que Ele faça sua vontade em mim.


O registro da ocorrência não foi feito, pois sua mãe assim o quis. Conversei com elas, após todo o ocorrido e pedi que elas a levassem à igreja. Elas disseram que já haviam tentado, mas, sem sucesso. Insisti que tentassem mais uma vez, afinal, o que seria de nós se Deus, mediante a nossa história, desistisse de enviar Jesus. Ele veio para os doentes, os cegos, coxos e paralíticos espirituais. Enfim, Ele veio pra mim, pra você e para aquela moça viciada que quebrou a casa de sua mãe. Por quê? Não sei ao certo, talvez seja apenas e simplesmente por amor (incondicional)!


Ronaldo Naves

segunda-feira, 29 de agosto de 2022

SUA DOR NUNCA MAIS SERÁ A MESMA. COLUNA VISÃO, COM RONALDO NAVES.

 




Sua dor nunca mais será a mesma.


Por Ronaldo Naves.



As dores podem confundir nossa mente e nos afastar momentaneamente da lucidez espiritual que está na capacidade de discernir entre a pena e a lição. Independente da natureza do sofrimento, seja ele físico, mental, emocional ou qualquer outro que você possa imaginar ou sentir, sempre haverá um significado por trás dele.


Uma queimadura, como exemplo de dor física, pode ter sido resposta de uma negligência com o dever de cuidado. Um corte, um hematoma, um enfisema ou a perda de um órgão, podem estar relacionados com comportamentos inadequados, perigosos ou hábitos que adquirimos no decorrer dos anos. São apenas respostas de um descuido casual ou assumido. 


No campo das emoções, as angústias,  os transtornos, as depressões assumem papel igualmente consecutivo, muitas vezes, dos transbordos das expectativas surreais que são geradas na mente. É o casamento perfeito,  o status glamuroso, a vida paradisíaca e todas as demais fantasias que não se refletem na realidade e acabam por frustrar os sonhos e a visão supra dimensionada e maravilhosa do mundo idealizado.


O equilíbrio do universo e sua existência passam por leis físicas e princípios absolutos que regem a vida em todos os aspectos e, quando desrespeitados, infringem consequências que ao mesmo tempo em que nos punem, nos ensinam. São balizas que avisam quando estamos extrapolando os limites. São mecanismos de ajustes que definem padrões que devem ser observados.


Quando compreendemos o funcionamento deste mundo mágico e refinado, aprendemos a aprender com um grau bem menor de padecimento, minorando as aflições e nos fortalecendo contra os males da rebelião pela rebelião. 

Sabiamente, evitamos, depois de uma certa maturidade, dores e dissabores já experimentados que causaram um gosto amargo na boca e um clima sombrio no coração. Somos treinados para a guerra, e o bom soldado é aquele que ajunta as melhores armas no combate dos vícios que o levam às batalhas perigosas, as quais são travadas, em sua maioria, dentro dele.


Vai aqui uma dica de quem acumulou cicatrizes no corpo e na alma:

Seja reflexivo a agressões e violências, contemplando os fundamentos dos ensinos de Cristo. Aja com cautela e sempre invoque a presença do Espírito Santo nas ocasiões de dificuldade. Opere com mansidão e domínio próprio frente aos descontroles e provocações. Encha-se com a paz que vem do alto e lembre-se de que o que está com você é maior do que o que está no mundo. Sua dor nunca mais será a mesma!



segunda-feira, 22 de agosto de 2022

PLANTÃO DE OPORTUNIDADES - COLUNA VISÃO, COM RONALDO NAVES.

 PLANTÃO DE OPORTUNIDADES






No plantão passado chegou um homem alto, magro e com a aparência bastante desgastada. Sentou-se à minha frente e começou a contar o motivo pelo qual estava ali. Pelo sotaque percebi que era mineiro ou goiano. Trouxe consigo um caderninho tipo aquelas cadernetas antigas que eram usadas para registrar as compras que eram feitas para pagar depois (fiado). Escreveu nela com letra de fôrma e resumiu as histórias com o jeito mineiro, dizendo que muita gente queria prejudicar a vida dele, inclusive seu irmão. Disse que o irmão era bandido e que cometia crimes e dava seu nome em vez de dar o dele. Ele, segundo ele mesmo, era honesto e trabalhador e quem quisesse conhecer sua reputação era só ir em Itumbiara e perguntar pelo gaguinho que mexia com eletrônica.


Apesar do semblante sofrido, gaguinho tinha uma alegria no jeito de falar. Puxei, então, o assunto e desenvolvi uma prosa ao estilo mineiro de ser. Ele revelou que os problemas e as perseguições lhe renderam até um tratamento psiquiátrico. Era bem perceptível que seria aconselhável mais algumas sessões para ajustar algumas coisas que ainda estavam fora do lugar. Durante a nossa prosa, Reginaldo não gaguejou nenhuma vez, apesar do apelido. Perguntei se havia sido curado da gagueira e ele respondeu que se ficasse nervoso não saía nada e que precisava falar cantando para driblar o problema.


A conversa foi ficando engraçada e o bom-humor tomou conta do ambiente. Ele falou bastante e rimos muito também. Mas, em determinado momento, sua face esguia, quase esquelética, me fez perguntar se ele já havia comido naquele dia. Ele, como bom mineiro, ficou sem jeito e envergonhado. Olhou por uns instantes para mim e só sacudiu a cabeça indicando que não. Falei num tom descontraído: 

- tem bolacha e café, quer?

Ele respondeu que um cafezinho seria bão.

Fui lá e busquei uma mãozada de bolachas e um copo de café quentinho para ele.


Vi que o problema dele não seria resolvido por nós, pois o único crime que eu conseguia enxergar ali, era o da indiferença social que marginalizou e ainda marginaliza pessoas e as torna doentes. Na cabeça daquele homem havia uma série de questões que ele próprio as criara para justificar seu estado de completo abandono. Na verdade, Reginaldo não queria registrar nada  só precisava de atenção e de um pouco de comida.


Depois de um papo descontraído e algumas risadas, ele saiu sem a ocorrência nas mãos,  mas com o coração mais aquecido e esperançoso. Às vezes, ouvir quem já não tem mais a quem recorrer é um trabalho precioso que nós, policiais, podemos e devemos fazer. Representamos, muitas vezes, a solução,  o amparo e a justiça que foram negados a estas vítimas da crueldade humana. São pessoas que outrora eram equilibradas, trabalhavam e tinham família, mas os abusos, as dificuldades e as pressões sociais constantes minaram a sanidade mental delas e fizeram com que elas perdessem tudo.





Cabe a nós, que ainda temos um pouco de compaixão, levar ao próximo que nos procura, mesmo que ele não saiba pedir, a solidariedade e o calor humano de que tanto necessitamos. Ver com os olhos de Cristo nos ajuda a entender as carências dos outros. Somos resgatados todos os dias de nossas próprias loucuras e perdoados de nossos erros, por que não darmos um pouco do que recebemos? Fica aqui, mais uma reflexão de um plantão que não para de nos proporcionar oportunidades. Você consegue ver?


Ronaldo Naves

segunda-feira, 15 de agosto de 2022

DUAS PARTES DE UM SONHO. COLUNA VISÃO, COM RONALDO NAVES.

 DUAS PARTES DE UM SONHO






Raramente, lembro-me dos meus sonhos, mas nesta  madrugada acordei logo após haver sonhado, e as imagens ainda estavam bastante nítidas em minha mente. Fiquei bem disperto e o sono foi embora como se fosse um sinal para que eu escrevesse tudo aquilo que eu havia acabado de ver.


Não quero que ninguém interprete como visão apocalíptica ou coisa do gênero, pois se trata de uma viagem no tempo para dois mundos e dois momentos totalmente diferentes.


A primeira parte do sonho era aterroeizante e nebulosa. O ambiente era pesado e a sensação era de pavor e angústia. Tudo se passava sob um panorama caótico onde o cenário era escurecido pelo mal que estava presente naquele lugar. Meu espírito pesava uma tonelada e a minha percepção era de que Deus não estava presente. Conseguia ver criaturas disformes e podia sentir a dor e a opressão que fluía em meio às trevas que envolviam a alma das pessoas que estavam ali. Andei por entre seres e coisas que causavam calafrios e o cheiro era parecido com aquele que os cadáveres exalam. Não conseguia respirar nem raciocinar muito bem. Na minha mente só vinha um pensamento:

"Este lugar é o inferno da alma".


De repente, uma luz resplandeceu como se fosse um sol gigantesco, e imponente  e as criaturas se dobraram diante da majestosa presença e fui arrebatado para outro lugar. Esta é a segunda parte do meu sonho.


A luz, como já disse, era como a do sol, mas não provinha do sol; era aconchegante e gerava uma sensação de proteção, segurança e bem-estar sem precedentes. O mais próximo que posso chegar para descrever o estado de espirito é o maravilhamento da plenitude de um céu jamais imaginado.


Era discernimento completo e uma consciência de vida inexplicáveis. Minha estrutura física era diferente e extremamente forte. Não sentia fome, porque o estado era de saciedade. O ar estava dentro de mim como se fosse desnecessário respirar; poderia passar horas debaixo d'água como um peixe e ao mesmo tempo voar pelo universo. As cores eram destacadas pelos meus olhos que viam não só a beleza das coisas, mas o espírito e a razão delas. A harmonia e o arranjo da cidade que visitei, proporcionava paz e reverência, porquanto era impossível não se deslumbrar com a magnitude e o poder que emanava de tudo e de todos.


Claro que não consigo descrever em palavras nem a primeira parte do sonho, nem a segunda. Apresentei apenas um esboço delas, pois são extremos de realidades opostas, porém, bem palpáveis.

Sonhei, penso eu, com uma amostra do inferno e suas dores e sofrimentos e com o céu e suas maravilhas.


Peço que não façam juízo de valor sobre o que acabei de narrar, nem tomem como uma visão do que nos espera depois desta vida. Quero apenas que meditem sobre a possibilidade de viverem debaixo da graça e do amor de Deus. Sabendo que a ausência dEle pode ser um pesadelo, e, sua companhia, uma dádiva que pode ser experimentada desde agora e para todo o sempre!


Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; Mt 25:34


Ronaldo Naves

segunda-feira, 4 de julho de 2022

32ª DP (SONHOS DESFEITOS) - COLUNA VISÃO, COM RONALDO NAVES.






 32° DP 

SONHOS DESFEITOS




Por RONALDO NAVES.



O dia foi agitado como há muito eu não via. Samambaia resolveu colocar seus problemas em forma de ocorrência e escolheu o dia 24 de junho para fazer isso. Infelizmente ou feluzmente, ainda não sei bem definir o fato, eu havia marcado meu serviço voluntário na 32° DP. Foram 12 ocorrências registradas por mim entre 11h30 e 19h30.


Vi, neste dia, muito choro e desalento, mas um choro me chamou mais a atenção. Era o de uma jovem mãe que chegou decidida a fazer alguma coisa sobre a história que ela iria contar. Sisuda e nervosa, começou dizendo que o pai de sua filha de 4 anos, não dava a mínima para a menina. Que ela tinha muito dó da coitadinha que de uns tempos para cá, reclamava quando tinha que ir para a casa do pai. 


Perguntei por quanto tempo ela ficou casada com ele, quanto tempo haviam se separado e qual era a constância que ele pegava a filha pra passar o tempo com ele. Ela respondeu que não chegaram a se casar e que o conheceu e na primeira vez que ficaram, ela engravidou. Falou com a voz embargada que quando ele soube da notícia, disse que ela havia acabado com sua vida. Descobri que ele é um monstro, disse ela explicando o porquê:

 - Ele está com outra mulher que tem um filho de outro relacionamento e disse que o pai do menino não liga para ele, então, por que ele teria que ligar para filha?

Neste momento, as lágrimas escorreram por trás dos óculos. Havia uma entonação nas palavras que me fez perguntar se ela ainda gostava dele. Ela respondeu que sim, e era este o motivo de estar sozinha por 5 anos. 

- Já apareceu muita gente, mas resolvi dedicar a minha vida para a minha filha. Ela outro dia me contou que o papai beijou a mulher na boca. Agora até isso ele tá fazendo na frente da menina, disse ela indignada.


Escutei muito tempo os lamentos da jovem que chorava toda vez que sentia que seus sonhos estavam sendo vividos por outra pessoa. Ela repetia sem perceber a frase: 

"como pode alguém trocar a filha por uma aventura com uma mulher."

No fundo, a criança era ela e ela se sentia abandonada, trocada e desprezada pelo homem que ainda amava. 


Perguntei o que ela queria ali na delegacia. Ela disse que não queria entregar mais a filha para ele, pois ele a deixava sozinha assistindo televisão, sem carinho, sem atenção.

- A Luísa (nome ficticio) está fazendo xixi e cocô nas calças e isso não é normal, contou chorando.

Sugeri que ela a levasse a um psicólogo e ela disse que já havia marcado com o dela e que também a levaria ao psiquiatra com o qual fazia terapia.


Por fim, e após muitas histórias e choros sentidos, aconselhei que ela se distanciasse do pai de sua filha e buscasse viver a vida sem depender da atenção dele. Que a relação seria mais saudável para a menina se ela (mãe) não fosse tão afetada pela conduta do "monstro". Deixe sua filha conviver com o pai se ela quiser e ele também, do contrário, supra as necessidades dela com amor e equilíbrio, acrescentei.




Não se pode obrigar alguém a dar o que não tem, e o amor não fazia parte do repertório do rapaz, não com relação a elas. O melhor é identificar logo o problema, aceitar a realidade e se livrar das fantasias de uma relação improvável. Seguir em frente com uma proposta nova, uma mente aberta e um coração voltado para Deus e suas infinitas bênçãos. A filha dela era uma prova viva do amor de Deus. Acredito que quando Ele fecha uma porta, outra maior se abrirá para nós. Contudo, precisamos deixar para trás o que para trás ficou. Alimentarmos sonhos fracassados faz com que fiquemos presos a eles e estagnados no tempo.


Sem tempo para mais delongas, pois outras pessoas aguardavam ansiosas pelo atendimento, despedi a moça que agradeceu as palavras e foi embora sem o registro da ocorrência, mas espero que a ida dela até a delegacia tenha retirado de seus olhos, o véu da cegueira deliberada de um amor inventado que só existia no seu imaginário. Espero que suas lágrimas sequem antes que seu coração endureça e não haja mais espaço para um amor de verdade!



terça-feira, 28 de junho de 2022

OLHE PARA TRÁS - COLUNA VISÃO, COM RONALDO NAVES.







OLHE  PARA TRÁS


                                                                                                                                  Por Ronaldo Naves.


Olhando para trás, vejo as coisas de forma mais clara. Consigo enxergar as vezes que caí e as que me levantei. Consigo avaliar melhor a minha própria força e saber dos meus limites. Olhando para trás, entendo por que nunca desisti, apesar de que, algumas vezes, pensei nisso. 

Hoje, parece claro que sempre estive sustentado por um amor palpável, ainda que invisível.


Todas as dificuldades foram superadas, mas não significa que tenha sido fácil. Não,  não foi nada facil. A vida é  sempre uma incógnita quando se trata do futuro, pois não se tem certeza de absolutamente nada. Entretanto, olhar para trás é um exercício de verificação e análise daquilo que já ocorreu. É como avaliar os detalhes de uma partida pelo videotape. Olhar para trás é uma excelente oportunidade de corrigir erros, reforçar acertos e, caso necessário, redirecionar a rota. 




Para o povo judeu o futuro se encontra nas nossas costas, e o passado à nossa frente. Isso se dá exatamente pelo fato de que todas as coisas que já se passaram, podem ser vistas, assim, como se estivessem diante da nossa cara, enquanto o amanhã é uma verdadeira incógnita, por isso, está atrás de nós, em algum canto ainda obscuro. 


A beleza de tudo que nos cerca e da própria vida é a completa incerteza sobre o minuto seguinte e o nosso constante esforço para se adaptar, superar e vencer os desafios propostos. Se você está vivo, você é um vencedor, contudo, ouvi dizer e concordo plenamente, que a vida é uma aventura da qual não se escapa com vida. Não por nós mesmos ou pela força exclusiva de nossos braços. 


Como ja disse anteriormente, somos limitados e a própria matéria representa uma fronteira a ser transposta. Quem já foi e quem já voltou de lá? Lá, das dimensões transcedentais onde as leis são diferentes, embora os princípios sejam universais. 

Olhando para trás vejo quantos parentes e amigos já cruzaram essa linha que separa os dois mundos: o da carne e o do espírito.



Muitos só veem um desses mundos porque seus olhos céticos se fixaram no que é aparente, apenas.

 Esquecem -se de olhar para cima, para dentro e para trás, deixando de aperceberem a presença de Deus dentro deles. Olhando para trás, vejo quantos foram alcançados e quantos continuam cegos e atados por sua própria sabedoria.

Olhando para trás, vejo nitidamente a minha ignorância quando pensava que sabia alguma coisa.


Olhe para trás você também e entenda que aqui é só uma antessala de passagem dentro de um breve tempo de um relógio que marca a eternidade.

É isso que vejo quando me despeço de alguém que já cumpriu sua missão e partiu.

A maior missão de todas foi cumprida na Cruz por quem ensinou o amor incondicional de um Pai por seus filhos. Recomendo a você que busque o sentido das coisas começando por esta história, a qual aprendi olhando para trás!



quinta-feira, 23 de junho de 2022

PRATELEIRAS - COLUNA VISÃO, COM RONALDO NAVES

 




PRATELEIRAS


Dei uma olhada nos armários aqui de casa e vi que apesar de algumas prateleiras necessitarem de uma arrumação, a maioria delas estava organizada. Percebi que as prateleiras inferiores são as mais bagunçadas, pois são as mais exigidas. Ali, colocamos as coisas que utilizamos no dia a dia e com muita frequência. Logo a cima, estão os objetos que são menos usados, mas não menos importantes e, por fim, as prateleiras mais altas com baixelas e jogos de porcelana quase nunca exibidos, apesar de sua beleza e requinte.


Na vida, sempre moramos nas prateleiras inferiores. Acho que, pelo menos, a maior parte do povo vive nelas. São práticas, acessíveis, simples e representam todo o básico necessário para a realização das tarefas cotidianas. Tudo, ali, fica à mão e o seu manejo é automático já que nosso inconsciente sabe o que fazer sem muito esforço mental. São os pratos, xícaras e copos onde bebemos e comemos várias vezes ao dia.


A prateleira intermediária é o lugar que visitamos quando precisamos de algo mais, que não usamos tanto, mas que é importante para estabelecer uma certa relação de normalidade nas nossas vidas. É a sopeira nas noites frias ou a travessa que recebe o bolo de cobertura ou o manjar de côco com ameixas pretas nas sobremesas semanais.


Lá no alto, no lugar que a escada ou o banquinho nos ajuda no acesso, estão as coisas finas de cristais e porcelana desenhada que raramente são expostas e que fazem exatamente a mesma coisa que os objetos de baixo fazem. A diferença está na nobreza do material e no valor que lhes é atribuído. Deus nos livre de quebrar qualquer um deles. São os faqueiros de prata, as taças de cristais, os jogos de porcelana, enfim, tudo aquilo que podemos dispensar e que não fariam a menor falta, haja vista a frequência com que são utilizados.


A verdade é que somos induzidos a pensar que somos mais felizes quando comemos iguarias culinárias em louças finas e raras. E é verdade que quando mudamos a rotina,  parece ativar uma parte do cérebro que nos causa sensações de bem-estar. É fácil saber o que é essencial e realmente tem valor; basta observar ao redor e ver o que está ao seu alcance e você acessa várias vezes ao dia. Lembrando sempre que tais objetos não são nada se dentro deles não for as bênçãos de Deus. Sim, pense bem e veja que o copo sem água não mata a sede. O prato sem o alimento, perde o sentido. A panela vazia suplica o arroz e o feijão. 


Na prateleira da vida, esbarramos com muitas pessoas que estão e estarão sempre no mesmo nível que nós porque independente da beleza, conhecimento ou riqueza nossa ou delas, o amor é o elemento que nos une e nos iguala. Outros estarão um pouco distantes, mas não são menos importantes, apenas, por força das circunstâncias, perderam a proximidade, no entanto, o amor também é o mesmo e estarão bem perto de nós e nós deles se houver necessidade.


Por último, haverá pessoas na tábua derradeira e mais alta da prateleira. São chiques e requintadas; possuem status e são perfumadas, são bem-vindas quando aparecem, porém, são dispensáveis, pois não agregam nada relevante a quem somos. A relação é formal e o amor não existe.


Assim, aprendo que o que atribui valor e importância a tudo é o amor. Ele é a comida sem a qual ficamos todos famintos. Sem Ele somos pratos e panelas vazias. Com Ele temos pão, água e vida a oferecer. Nossas botijas  estarão sempre nas prateleiras de baixo, ao alcance de quem quiser se servir do alimento que dEle recebemos e guardamos em nós. Não há nada fora de Deus, nem pratos ou talheres; nem alimento, nem vida; e acreditem, nem mesmo prateleiras!


Ronaldo Naves

segunda-feira, 13 de junho de 2022

ESTRÉIA DA COLUNA VISÃO, COM RONALDO NAVES - UM OLHAR DIFERENCIADO SOBRE A EXISTÊNCIA HUMANA.

 




EU E DEUS SOMOS MAIORIA



Às vezes, o joelho se dobra, os ombros esfolam e as costas são castigadas com o peso das responsabilidades, com a carga demasiada das perdas que sofro, com as dores que ferroam minha alma. Sou testado todos os dias por todos os lados. Sou ilha cercada de desafios que ameaçam invadir minhas praias. E os temporais de problemas dão contra os rochedos de fé que erigi como escudos que protegem minha estrutura e a mantém de pé. 


Não importa o tamanho das dificuldades que se erguem diante de mim, porque minha força está em Deus. E ainda que se dobrem os joelhos, haja vista o jugo pesado, e meus olhos fiquem marejados por causa dos aguilhões que me ferem, e mesmo que as feridas sejam remexidas constantemente antes que se curem, eu não recuarei um passo da sua presença. O Senhor é quem estabelece meus limites e conhece a largura dos meus ombros. Aceitarei andar por caminhos pedregosos e lutarei com gigantes se assim for a Tua vontade. Contigo atravesso desertos escuros e suporto as dores da estrada, porque tudo é possível àquele que crê e eu creio de toda a minha alma.


Não aguentaria Tua ausência ainda que por um breve momento, pois seria a experiência de um soldado que perdeu o sentido da batalha. Quem crê luta com as armas espirituais que lhe conferem poder e renovo que os faz levantar uma vez após a outra, porque os olhos estão em Ti.


Não há missão grande demais  tampouco apequenada, mas apenas missão. Seja fornalha, seja cova de leões ou seja andar sobre as águas, ali estarei confiante e preparado, pois aquele que envia, também capacita e sustenta. Confesso que cada passo dado, em meio às lutas, só foi possível porque suas mãos me conduziram. Do contrário, não seria possível caminhar exclusivamente pela minha propria força. Não sou nada sem a Tua presença,  só ilusão e soberba. Por isso, reitero minhas súplicas diárias para que me unjas com o óleo da fé, para que me ilumines com a sabedoria do alto e para que faças morada em mim. Desta forma, coisa alguma jamais me faltará!


Ronaldo Naves.

Dia do Agente Policial de Custódia

  28 DE JULHO |  DIA DO AGENTE POLICIAL DE CUSTÓDIA DA PCDF  Hoje é dia de homenagear profissionais cuja atuação é fundamental para a engren...